27/12/2022 às 15h20min - Atualizada em 27/12/2022 às 15h20min

Polêmicas, acusações e até venda de porcentagem: Ipatinga FC abre jogo sobre a SAF e sobre a Kraken Sports

Comunicado divulgado pelo Tigre expõe situações vividas na relação com a empresa de Marcos Ferraz e faz graves acusações

Redação
Foto: Portal da Cidade Ipatinga

O Ipatinga Futebol Clube divulgou nesta terça-feira (27) uma nota na qual faz acusações à Kraken Sports, empresa que esteve junto ao clube durante a disputa do Campeonato Mineiro Módulo II em 2022 e que até então era a principal candidata à aquisição de sua Sociedade Anônima do Futebol (SAF).

Uma das acusações mais graves é de que a empresa, por meio do empresário Marcos Ferraz, teria negociado uma porcentagem do clube, “sem autonomia e poder para tal”, e que já teria recebido do suposto comprador R$ 300 mil reais de um total de R$ 2 milhões de reais

Na nota, foi exposto pelo clube detalhes de polêmicas envolvendo a parceria do clube e a empresa, como o não pagamento do último salário dos jogadores que conquistaram o acesso à elite do futebol mineiro. Pelos motivos citados na nota, a diretoria do Ipatinga informou que a empresa não tem mais prioridade para adquirir sua SAF

Escolha do investidor e aporte inicial

No comunicado divulgado, o Ipatinga disse que em abril, após externar as dificuldades vividas pelo clube, teriam surgido investidores interessados em realizar aportes de recursos financeiros. Nicanor Pires, o presidente do Ipatinga FC, teria então optado pela Kraken Sports, após algumas conversas. 

O acordo realizado com a empresa, segundo o clube, previa que fosse aportado pela Kraken recursos próprios para o Ipatinga disputar o Módulo II do Campeonato Mineiro. Assim, ainda segundo ao Ipatinga FC, um valor em torno de R$ 100 mil reais foi aportado pela Kraken para inscrição de atletas e pagamento de salários na primeira semana. 

Segundo a nota, a partir desse momento toda a gestão financeira do clube ao longo do ano ficou a cargo da Kraken, que não teria conseguido aportar mais recursos já no segundo mês. “Foi necessário recorrer a parceiros do clube, desprezados pela Kraken quando a mesma chegou ao Ipatinga”, diz o comunicado.

Para continuar na competição, segundo a nota, o Ipatinga contou com recursos de patrocínios de empresas da região, bilheteria, vendas de publicidade no Ipatingão e outras receitas, todas não oriundas da empresa que, pelo acordo, deveria fazer o aporte. 

A nota ainda questionou entrevistas dadas pelo representante da Kraken, Marcos Ferraz, à veículos de imprensa da região. 

“Por diversas vezes, Marcos Ferraz, representante da Kraken deu entrevista dizendo que gastou mais de 2,5 milhões no Campeonato Mineiro, que quitou dívidas antigas do clube, fazendo com que o torcedor acreditasse que o clube havia encontrado uma solução. As despesas do Ipatinga FC não chegaram nem próximo do valor externado”, afirmou o clube na nota. 

Aprovação da venda pelo conselho

No mês de junho, o Conselho Deliberativo do Ipatinga Futebol Clube, aprovou a venda da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do clube para a Kraken Sports pelo valor de R$ 80 milhões de reais. O valor, de acordo com o clube, deveria ser utilizado no pagamento de dívidas do clube e também para realizar melhorias. Segundo a nota, o aporte não aconteceu

Polêmicas, golpes, dívidas e salários

Na nota, a diretoria do Ipatinga fez duras acusações e tornou público polêmicas envolvendo atrasos salariais que, segundo o clube, teria a Kraken Sports como responsáveis.

O caso envolvendo o não pagamento dos atletas que conseguiram o acesso para o Módulo I do Campeonato Mineiro, por exemplo, foi citado pelo clube na nota.

“É público que a Kraken não quitou o salário do mês de julho, que venceu logo após a conquista do acesso à elite do futebol mineiro, mesmo tendo recebido recurso da empresa Multimarcas para a quitação desse débito. Diversos jogadores entraram na justiça para cobrar o pagamento do último salário que a Kraken, que havia assumido publicamente que seria a única responsável financeiramente falando pelas despesas do Ipatinga FC, [não pagou]. O presidente Nicanor Pires já realizou o pagamento de alguns desses atletas e negocia com os que não entraram na justiça para resolver a pendência”, disse o clube, por meio do comunicado.

Como já citado na reportagem, o Ipatinga também afirmou que a empresa teria negociado uma porcentagem do clube, “sem autonomia e poder para tal”, pelo valor de R$ 2 milhões de reais, e que o suposto comprador já teria pago ao representante da Kraken, Marcos Ferraz, o valor de R$ 300 mil reais.

“A Kraken conseguiu também a proeza de deixar para o clube uma dívida na Federação Mineira de Futebol, algo que jamais havia acontecido na gestão do presidente Nicanor Pires. O curioso é que essa dívida com a FMF não deveria existir, uma vez que a causa da dívida é a ausência de pagamento dos impostos e taxas dos jogos realizados em casa, que sempre são descontados da renda da bilheteria, mas que, por algum motivo, não foi repassado para a FMF”, afirmou o clube na nota divulgada.

Outro caso de atraso salarial, segundo a diretoria do Ipatinga FC, teria acontecido em julho, quando a Kraken teria pago o salário com 20 dias de atraso após receber recurso de um patrocinador. 

Uma parte da nota cita ainda que o clube teria recebido cobranças da empresa de ônibus que levou a delegação em viagens e restaurante.

A nota fala também que o Ipatinga Futebol Clube foi procurado por pessoas que sentiram lesadas e que teriam sofrido golpe da empresa USD SPORTS, que faz parte do Kraken Holding Inc., e que inclusive estampou o espaço destinado ao patrocinador master na camisa do Tigre durante o Módulo II. Casos de camisas oficiais vendidas pela Kraken à torcedores e que não foram entregues também teriam sido relatados ao clube, segundo a nota.

Outra polêmica foi a entrevista dada pelo meio-campista Tchô, ex-Atlético e que defendeu o Ipatinga na campanha de 2022, a um podcast, na qual o mesmo disse que as condições vividas no Centro de Treinamento (CT) do Ipatinga eram “precárias”.

Edilson Capetinha não fará parte da diretoria 

No começo de novembro, o Ipatinga surpreendeu e anunciou que o pentacampeão do mundo pela Seleção Brasileira, Edilson Capetinha, faria parte da diretoria do clube no Campeonato Mineiro de 2023. Na publicação de anuncio no perfil do Ipatinga no Instagram é citado que “CEO da SAF, que inclusive já está com toda documentação necessária pronta, Marcos Ferraz”, estaria envolvido na negociação. 


Perguntado pela reportagem sobre o assunto e sobre a autoria da publicação, que inclusive diz que a SAF da Kraken estaria com a documentação pronta, Nicanor Pires limitou-se a dizer que “não existe mais Marcos no Ipatinga” e que Edilson também não fará parte da diretoria.

“Na verdade Marcos não conseguiu trazê-lo de forma efetiva. Não existe Marcos no Ipatinga. Nessa época ele fazia parte. Não faz mais”, afirmou Nicanor.

Kraken não tem mais prioridade na compra

Após externar as acusações, ainda na nota, a diretoria do Ipatinga disse que a empresa representada por Marcos Ferraz não tem mais prioridade na compra da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Ipatinga.

Em entrevistas anteriores o presidente Nicanor afirmou que o clube, por conta própria, deu andamento no processo de formalização da SAF, e agora só aguarda a liberação do CNPJ para oferecer a outros “empresários com poder de compra”.  

“O torcedor pode ficar tranquilo e ter a certeza de que diretoria e conselho farão o melhor para a instituição, independente de pessoas. A nossa prioridade é o Ipatinga Futebol Clube”, finalizou assim na nota.

Kraken Holding Inc.

Na página do CEO da Kraken Holding Inc., Marcos Ferraz, no LinkedIn, a empresa é descrita como sendo “uma empresa árabe-brasileira, focada principalmente na identificação de oportunidades nas áreas de comunicação, inovação tecnológica, infraestrutura, recursos naturais, agro tecnologia e biotecnologia”.

No momento da publicação desta matéria, tanto o site krakenholding.com, da Kraken, quanto usdsports.io, da USD Sports, se encontravam fora do ar




No Instagram da USD Sports, que se descreve no LinkedIn como sendo a “primeira bolsa de valores esportiva do mundo, com um foco de 100% em ativos esportivos e e-sports”, a última publicação foi feita no dia 30 de setembro, e é possível ver comentários “pedindo por respostas”


Um outro seguidor reclamou justamente sobre o funcionamento do site, dizendo que não consegue se conectar.


A reportagem entrou em contato com o representante da Kraken, Marcos Ferraz, para dizer as suas versões dos fatos aqui relatados. Até o momento da publicação, o contato não havia sido respondido.

Confira o comunicado divulgado pelo Ipatinga FC na íntegra:

Comunicado oficial!

Desde a aprovação do projeto de lei que criou a Sociedade Anônima do Futebol no Brasil, que o Ipatinga FC demonstra o desejo de se transformar em SAF, principalmente por problemas financeiros e dívidas trabalhistas. 

Em abril, o Ipatinga externou suas dificuldades e com isso sugiram alguns investidores interessados em aportar recursos financeiros no clube. Após algumas conversas, o presidente Nicanor Pires optou pela Kraken Sports, empresa que esteve junto do clube durante a disputa do Módulo II do Campeonato Mineiro. 

O acordo com a Kraken previa que a empresa deveria, de imediato, aportar recursos próprios para a disputa do Campeonato Mineiro e sendo assim teria prioridade na aquisição da SAF. Na primeira semana foi aportado um valor em torno de R$ 100.000,00, para inscrição de atletas e pagamento de salários. 

O presidente do Ipatinga FC abriu mão da gestão financeira e deixou que a Kraken tomasse conta dessa parte, controlando entradas e saídas. 

Já em seu segundo mês, a Kraken não conseguiu aportar mais recursos e foi necessário recorrer a parceiros do clube, desprezados pela Kraken quando a mesma chegou ao Ipatinga. 

Para a sequência da competição, os recursos investidos no clube foram oriundos das empresas Superbets, Connect, Vale Grill (bar no estádio), receita de bilheteria dos jogos, vendas de placas e outras receitas geradas a partir do próprio clube e não oriundos da Kraken. 

Em junho, o Conselho Deliberativo do clube aprovou por unanimidade a venda da SAF para a Kraken por 80 milhões de reais que seriam utilizados para quitar as dívidas do clube e investir em melhorias, o que não ocorreu. 

No dia 25 de julho, data do último jogo em casa, diante do Tupynambás, a Kraken por meio de recurso aportado pela empresa Multimarcas, realizou com 20 dias de atraso o pagamento referente ao mês de junho. 

É público que a Kraken não quitou o salário do mês de julho, que venceu logo após a conquista do acesso á elite do futebol mineiro, mesmo tendo recebido recurso da empresa Multimarcas para a quitação desse débito.
 
Diversos jogadores entraram na justiça para cobrar o pagamento do último salário que a Kraken, que havia assumido publicamente que seria a única responsável financeiramente falando pelas despesas do Ipatinga FC. 

O presidente Nicanor Pires já realizou o pagamento de alguns desses atletas e negocia com os que não entraram na justiça para resolver a pendência. 

Por diversas vezes, Marcos Ferraz, representante da Kraken deu entrevista dizendo que gastou mais de 2,5 milhões no Campeonato Mineiro, que quitou dívidas antigas do clube, fazendo com que o torcedor acreditasse que o clube havia encontrado uma solução. 

As despesas do Ipatinga FC não chegaram nem próximo do valor externado e rapidamente imprensa e torcida começaram a perceber que algumas falas do representante da Kraken não tinham menor sentido. 

Nos últimos dias, a diretoria do clube tem recebido muitas informações que colocam em dúvida a idoneidade da Kraken, como por exemplo o anúncio por parte da mesma do senhor Felipe Ximenes como membro da diretoria da SAF, o que foi negado pelo próprio. 

O presidente do clube recebeu também com muita surpresa uma informação de que o senhor Marcos Ferraz havia negociado um percentual do clube, mesmo ele não tendo autonomia e poder para realizar, por dois milhões de reais e que esse suposto comprador já havia repassado ao Marcos Ferraz cerca de R$ 300.000,00. E ainda assim a Kraken deixou de cumprir com as obrigações salariais.

A Kraken conseguiu também a proeza de deixar para o clube uma dívida na Federação Mineira de Futebol, algo que jamais havia acontecido na gestão do presidente Nicanor Pires. O curioso é que essa dívida com a FMF não deveria existir, uma vez que a causa da dívida é a ausência de pagamento dos impostos e taxas dos jogos realizados em casa, que sempre são descontados da renda da bilheteria, mas que, por algum motivo, não foi repassado para a FMF. 

Sem contar as cobranças que o presidente recebeu de empresa de ônibus que levou a delegação em viagens e restaurante.
 
Camisas oficiais forma vendidas ao torcedor e não repassada ao comprador, reclamações de pessoas que se sentiram lesadas e sofreram golpe da empresa USDSPORTS, que faz parte do grupo Kraken. 

Sendo assim, diante do exposto e afim de esclarecer para o torcedor, está relatado alguns fatos que justificam a não prioridade mais da Kraken Sports para a aquisição da SAF. 

O torcedor pode ficar tranquilo e ter a certeza de que diretoria e conselho farão o melhor para a instituição, independente de pessoas. A nossa prioridade é o Ipatinga Futebol Clube. 


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