“Vivemos uma epidemia de violência sexual contra crianças e adolescentes.” A declaração foi feita pela promotora de Justiça da Infância e Juventude, Renata Cristina Torres, durante audiência pública promovida pela Câmara Municipal de Ipatinga na noite desta segunda-feira (25/05) para discutir políticas de prevenção e enfrentamento ao abuso e à exploração sexual infantil. O debate foi proposto pelo vereador Major Ednilson. Segundo a promotora, levantamento realizado em Minas Gerais com base em boletins de ocorrência registrados entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026 aponta 9.320 casos de abuso sexual contra menores no estado. Mais de 50% das ocorrências acontecem dentro do ambiente familiar. “E o que torna tudo isso ainda mais grave é que, por se tratar, em grande parte, de um crime intrafamiliar, muitas crianças não encontram respaldo dentro da própria família para denunciar seus abusadores”, afirmou Renata Cristina Torres.
Presente na audiência, o juiz da Vara Criminal de Ipatinga, Antônio Calais, ressaltou os avanços na legislação de proteção às crianças e adolescentes, citando a Lei da Escuta Especializada, que prevê acolhimento da vítima por profissionais capacitados, evitando a revitimização durante o processo de denúncia e investigação. Ipatinga conta atualmente com uma sala de depoimento especial instalada no fórum da comarca. “A cada 15 dias são realizadas audiências relacionadas a casos de abuso sexual em nossa comarca. Em cerca de 80% dos casos, os depoimentos resultam em denúncias, com índice de condenação próximo de 95%”, informou. O juiz destacou que, apesar da evolução das leis, a reincidência ainda preocupa, e defendeu o fortalecimento do trabalho de conscientização nas escolas. “Por se tratar de um crime com alta incidência no ambiente familiar, é na escola que muitas vezes a vítima encontra espaço seguro para pedir ajuda”, concluiu.
O chefe de Planejamento Operacional do 14º Batalhão da Polícia Militar, tenente Clessiano de Oliveira Martins, informou que a PM inaugurou recentemente uma sala de acolhimento para mulheres vítimas de violência e destacou a atuação da Rádio Patrulha de Proteção à Mulher e do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd). “O fato de a Polícia Militar estar presente nas escolas contribui para a criação de vínculos de confiança com os estudantes. Muitas vezes, o policial se torna uma referência segura para que crianças e adolescentes possam relatar situações de violência”, afirmou. A delegada regional da Polícia Civil em Ipatinga, Talita Martins Soares, anunciou durante a audiência a implantação da primeira Sala Lilás do estado voltada à escuta especializada de vítimas de violência, com atendimento contínuo durante os sete dias da semana.